quinta-feira, 28 de agosto de 2008

JOÃO GÓIS vs TCHAKARE KANYEMBE

Costumava passar horas a falar de música com o João (aka João do Mêmo ou João do Trompete) no “centro cultural marginal da Camacha”: o Casimiro. O João é uma pessoa com formação musical – tendo traçado o seu percurso no conservatório, culminando com o curso de jazz da ESMAE - e com uma paixão ímpar pela música; é uma pessoa extremamente eclética e com uma visão muito abrangente em tudo em que diz respeito ao universo musical. Nas nossas tertúlias habituais ao fim de semana, encaixávamos numa mesma conversa, focos tão díspares, que iam desde Messiaen a Bowie, de Miles Davis a Leonard Cohen. Esta heterogeneidade de valores reflectia-se não só nas suas preferências musicais, como na sua capacidade interpretativa do trompete e, na sequência desta elasticidade e capacidade de adaptação a conceitos sonoros diferentes, o João percorreu conceitos musicais muito dissemelhantes uns dos outros, que vão desde o recital, apresentado no seu fim de curso, até ao projecto Tchakare Kanyembe. Para o recital, fez um arranjo de um prelúdio para piano, de uma obra com mais de 100 anos, de Debussy ("Reverie"); fez temas originais em conjunto com a Rita Martins (uma colaboração perfeita entre a melodia, a cargo da Rita, e a harmonia, da autoria do João), dos quais resultaram “Chama Rita”, e um tema dedicado a Kenny Wheeler, oportunamente denominado “For Wheeler”, num estilo que deambula pela técnica do músico e que foi inspirado na suite “Large And Small Ensemble”. É extraordinária a versão de um tema de Seamus Blake, “Badlands”, que representa uma estética nova do jazz, levada a cabo por músicos como Kurt Rosenwinkel e o próprio Seamus Blake.











Os Tchakare Kanyembe, projecto que esteve ás portas de concluir o seu álbum de estreia, tendo sido abortadas as gravações devido à saída do vocalista (Simonal), debruçava-se sobre música de raízes negras, que iam desde o funk, ao jazz até à chamada Yoruba Music (música de origem nigeriana), fundindo-se num estilo a que comummente se designa por afrobeat. São um colectivo de corpo presente no Porto, com um pé na Camacha e a alma em África, e praticam um groove rítmico hipnotizante e viciante, sustentados por uma secção de metais poderosa e de grande versatilidade, com o vocalista e dirigir toda esta panóplia de sons com uma voz de sotaque oriundo de países africanos, como se estivesse a dançar numa mesma roda que o Fela Kuti. Teria sido uma das grandes revelações nacionais deste ano, se o lançamento do álbum se tivesse concretizado. Entretanto, o grupo reformulou-se, tendo o João saído do projecto quase em simultâneo com o vocalista. A banda continua “na estrada”, esperemos que um dia chegue o tão adiado lançamento discográfico.






1 comentário:

Leo disse...

Grande artista Camacheiro
Falta nos música assim num próximo ArtCamacha, ou até noutro evento que posso surgir no futuro!