terça-feira, 5 de agosto de 2008

ARTE & SOM / DUARTE


ARTE & SOM


Nos finais dos anos 70 e inícios dos anos 80, a Camacha vivia a época do vinil, era uma terra musicalmente fechada, onde as novidades exteriores eram escassas, limitadas a programas de rádio e a algumas discotecas com uma oferta muito restrita. O Casimiro era o ex-libris da informação discográfica e, a bem ver, o mais importante factor impulsionador de um certo estilo de vida pós-moderno – cigarettes & alchool, casacos de napa (um certo sucedâneo do cabedal à Suzi Quatro), penteados “mod”, com o estratégico pente, sempre à mão, no bolso esquerdo traseiro das calças, e as Casal Boss e Zundaps estacionadas na “entrada da Cova” -, a par das bandas pop/rock que ajudavam a divulgar os êxitos musicais anglo saxónicos.
Neste contexto, paralelamente ao cansaço e morte do punk britânico e à ascensão da New Wave (e outros subgéneros, como o post-punk, o synth pop, ou electro pop), onde em Portugal o eco fez-se sentir em bandas como os Táxi, Heróis do Mar, Banda do Casaco, UHF, Salada de Fruta ou GNR, na Camacha surgiram os Arte & Som, o porta estandarte de várias gerações - que revolucionaram a música pop/rock Camachense e foram modelo para muitos putos que, mais tarde, quiseram ter as suas próprias bandas -, sendo que eles, mais do que uma banda de entretenimento, representavam a divulgação em primeira mão de estrelas mundias como Fischer Z ou Steve Miller Band. Existia mesmo a preocupação de trazerem os álbuns recém lançados no mercado, de Londres, que seriam posteriormente difundidas pela banda cool da camacha.
Eram os rapazes bonitos da vila, que tocavam instrumentos eléctricos, eram novidade e alegravam as festas e sobretudo hotéis. Os Arte & Som, uma das bandas pioneiras do Rock Camachense (influenciados pelos The Pop Kings e Eagles 3, o “big bang” pop na terra dos vimes), juntaram-se quando o Adriano “do Branquinho”, que tinha uma banda denominada “Help” juntamente com o João Carlos do Valentim e o Zé Manel do Porfírio, resolveu convidar o Jorge Valentim e o Egídio, que já andavam a ensaiar em jams descomprometidas em garagens. Os elementos encontraram-se e a química aconteceu, tendo a primeira actuação ocorrido em 1980. O Egídio na guitarra era o punho forte do projecto, direccionando o grupo como um fio condutor infalível, definindo-os como uma banda de covers, onde muitas vezes, as versões suplantavam os próprios originais (ultrapassaram o destino de muitas bandas londrinas que, apesar de originais, “eram one hit wonders”: apenas gozaram os seus 15 minutos de fama warholianos e desapareciam).
Mesmo optando por um repertório baseado em covers, ainda compuseram originais; um com a voz do Adriano a descrever, em formato rock português, a rotina do quotidiano, e outro tema, com a voz do António, num lamento romântico, quais Roxy Music ou Spandau Ballet, a chorar um platonismo, em género New Romantic. Eles fizeram jus à máxima universal do “Sex & Drugs & Rock’n’roll”, onde a vida boémia, a música e a diversão era o lema forte e regra da casa, mais do de um agrupamento rock eles eram uma celebração! Durante este período, uma das presenças nos ensaios, e que os apoiou muito, foi o professor Mário André, uma figura incontornável no nosso universo musical madeirense.
Em 1983, a convite do Adriano, juntou-se a eles o António como voz principal, dando uma maior liberdade ao Adriano para se dedicar ao sintetizador. Apesar desta mudança, uma outra mais radical verificou-se em 1985, dando inicio à 2ª fase da banda, onde o Adriano sai definitivamente do grupo cedendo o lugar das teclas ao Duarte, que a convite do Egídio, ingressou no colectivo, trazendo novas ideias. Oriundo dos “Cosmos”, o Duarte revelou-se um mago da electrónica, de cariz retro futurista, cuja versatilidade técnica e criativa permitiu à banda deambularam desde o Rock vintage dos Creedence Clearwater Revival até à electrónica dos Soft Cell.

Apesar do domínio e dos conhecimentos da cultura pop da época, eles eram sobretudo um grupo de amigos de cariz beatleniano, onde a amizade e a música eram o grande motivo para tocarem. Após alguns anos de estrada, o principal mentor da banda, o Egídio, decidiu que era altura de sair, em 1988, e o grupo entra numa fase de cansaço e desorientação, o qual nunca conseguiu ultrapassar e, como consequência, decidem terminar um ano depois, em 1989.
Chegaram a se juntar para uma única actuação no Arte Camacha em 1995, tendo sido esta a última vez que tocaram juntos em palco. O Duarte e o António mantêm ainda um projecto em conjunto, tocando em hotéis.







Tive o prazer de estar com os Arte & Som um destes dias e, para minha surpresa, continuam a se encontrar para tocar em acontecimentos informais, em grupos de amigos, mantendo sempre a mesma postura, o que me leva a concluir que, eles nunca acabaram de facto… eis o exemplo do que deveria ser uma banda!




video
Jam Session (2008)









Formação:

Adriano do "Branquinho" - Voz e Sintetizador
António - Voz
João Carlos Valentim - Guitarra
Jorge Valentim (
Incógnitos, The Pop Kings, Gente Louca) - Baixo
Egídio (
Eagles 3, Incógnitos, The Pop Kings) - Guitarra
Duarte - Sintetizador
José Manuel Porfírio - Bateria

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PROJECTOS A SOLO:


DUARTE








*Anos depois do fim dos Arte & Som, em 2005, o teclista, Duarte, recebe o convite para compor música para uma passagem de modelos. O resultado foi quatro temas, que funcionam como um puzzle, que no seu todo formam a "Colours Symphony": uma peça musical inquebrável, que é uma junção de cores (Black, Brown, Red & Yellow), sustentada por mini sinfonias electro, em variações espectrais, como se o som tivesse cor, ou se a cor tivesse música! À boa maneira de uns Kraftwerk a reproduzirem electronicamente os sons urbanos e industriais, o Duarte compõe peças musicais caleidoscópicas, recorrendo à plasticidade dos sintetizadores analógicos, em muito devedora à electrónica alemã dos anos 70 e ao electro-pop britânico dos anos 80. Coincidentemente (ou não) esta sinfonia electrónica colorida apareceu no apogeu do electroclash, mas o mundo teima em não andar de olhos postos na Madeira! É pena, pois a genialidade musical está cá toda! Fantástico!






1 comentário:

lila disse...

Amigo fizeste-me mergulhar no passado das festas; no tempo em que eu ouvia "Arte & Som", tentando acompanhar "Black is Black la la la....".
Nos tempos em que eu vestia apressada um fato novo, uns sapatos novos e rumava à achada, na festa do senhor ou das maças, para dar voltas à Achada e para ver o conjunto de ritmos modernos.
E tudo tinha um sabor novo, especial e diferente.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai que saudadi!
Quero vê-los outra vez.
Absolutamente fantástica esta tua recolha destas bandas.
"Venho mais 5 duma acentada que eu pago já." Venham 5 10 20.

Obrigada pelo regresso ao passado.
Beijos mil
ilda